Ca Fé

café

Na xícara de café das 11h deixo metade das  vontades que tenho.

Não deixo tudo não, pra ver se metade basta pra dar a coragem que falta.

A verdade?

Vontade de ficar quase enche a xícara.

Café que é bom só enche o peito, já cheio de ideia errada.

O café das 11 é ritual.

Sagrado.

De amém em amém, saúde! Brindo pra acordar.

Depois de um tempo da bebida amarga, até atravesso a rua pra fazer sinal e pegar o próximo 410.

Subir no 410 requer, talvez, 2 cafés.

A cadeira na segunda fileira do lado esquerdo sempre vazia.

Coincidência ou não, aceito.

De qualquer forma, já guardei pra mim todas as músicas possíveis para tornar o caminho dos melhores.

Sento virada pra janela.

De lalala em laraiê. Vamos.

É uma pena quando o momento da coragem ser protagonista força o silêncio dos fones de ouvido.

Mal terminou a música…fica tudo igual filme em preto e branco.

Mudo.

E sinto o restante do dia como se por efeito de lâmpada estroboscópica.

Perde-se detalhes.

O tempo parece congelar aos poucos.

Passar de va gar.

E quando volta ao normal…

Nada que passou restou entendido de forma completa.

E por isso…

me sirvo mais um café.

Saúde!

No caminho da volta o lado esquerdo ainda me espera.

Insistente.

Sabe como é.

Mente vazia oficina do cara lá de baixo. Pelo menos diz o ditado.

A cabeça vai enchendo na pressa. Como se fosse meio-dia e fosse a hora de almoçar correndo.

Ao chegar no destino final já nem sei qual foi o primeiro pensamento.

O cara é bom!

Abro a porta contando até 10, pra ver se a oficina aqui dentro percebe o fim do expediente.

Aquele café ajuda no trabalho certeiro.

Antes do 10 eu já entrei.

E pronto. O sofá espera.

Os fones de ouvido já falantes aguardam as 11h do dia seguinte.

Escrevo no guardanapo qualquer palavra dissidente só pra ver no que dá.

Mas não dá em muita coisa.

E daí que só pra contrariar e tentar dormir antes das 4 sirvo, dessa vez, a xícara de chá.

O chá deixa tudo aqui mais quietinho.

E no fim…

O olho abre com o despertador.

Mas só abre mesmo às 11h.

Mergulho


Eu vou é mergulhar em mim, deixe.

Aliás, deixe nada…

Eu mesma me deixo!

Eu vou é me cantar. Me enfeitiçar comigo e me abraçar toda, só pra gostar de mim.

Sendo eu nunca fui tão minha.

Eu que sempre fui de fala mais que de ouvido agora me vejo, inteirinha no espelho da sala…

E até que olho. Paro. Fito.

Tá ali ainda, o brilho no olho. Brilho esse que é tipo um suspiro da alma.

Tá de se ver…

Faz convite pro olhar dos outros, que teimam em parar um segundo dando aquela mirada esperta…Só pra ver se o brilho passa pelo ar.

E passa.

Ô brilho contagiante!

Vai e se espalha até onde o sonho voa.

E ó…

O sonho voa longe, mais de metro, mais do que se conhece.

Dá vontade de amarrar fita, amarrar na ponta de qualquer que seja o artifício.

E fazer o sonho parecer sumido…Quando tá apenas crescido. Subindo, subindo…

Subiu.

De repente ele volta com tudo, inunda o lugar e envolve!

E dizemos: opa! Eu não esperava por essa!

A gente se sorri de volta, se devolve o sono. Se abraça enorme.

Se amar é isso.

Se amar é subir pra ver melhor a vista.

Descer pra ver a luz na fresta.

Correr pra chegar mais depressa.

Ir devagarinho, pro barulho ser pouco e acabar sendo surpresa.

Tem dias que me amo distraída.

Quando vejo…

Tô morando em mim.

Arrepio

arrepios

“O que te arrepia?”

Essa pergunta fez da palavra arrepio, uma verdade na pele.

O que arrepia? Pensou.

Um tanto.

Arrepiava o som do mar depois de uns tempos de concreto.

Parede, tela e portas fechadas. A claustrofobia da rotina deixava a pele ansiosa…

E o toque da água excitava o corpo todo.

Água sempre fez um bem imenso…

Remédio.

Arrepiava a voz de Elis cantando “O bêbado e a equilibrista”.

Ou Gonzaguinha em “Grito de alerta” com Maria Rita.

E Gil, em “Não tenho medo da morte”.

Arrepiava ouvir “Pedacinho do céu” no cavaquinho. Fazia lembrar dos tempos em que tudo era mais leve e fácil… hoje dói pensar.

Arrepiava a arte.

De Guayasamin, de Klint, de Frida, de tantos.

Um arrepio ruim dava ao se imaginar caindo, sempre que de cima da escada ela fitava o chão.

Assim como era ruim pensar na mesquinharia governista e no oportunismo de hoje.

Arrepiava o estômago.

Mas alguns, alguns frios na barriga… Eram bons.

Como quando vinha algo inesperado e bom.

Ou o friozinho que dá passar de carro depressa, naquela avenida que dá na Praia de Botafogo.

Arrepia um tanto.

Outro dia deu arrepio lembrar de já ter visto aquilo antes.

Déjà vu arrepia. Sempre.

Cosquinha no pé. Sorvete gelado demais. Vento cantando. Porta rangendo. Barulho de faca sendo amolada e de unha raspando na parede.

Arrepiam certas paisagens.

Ler as cartas. Arrepia. Algumas.

Ô…

Tem dias que não diz o que arrepia, só pra contrariar quem pergunta.

E isso, de vez em quando, arrepiava o dono do ponto de interrogação.

Arrepia o primeiro dia do horário de verão e as tardes cor de rosa.

Violão baixinho no escuro.

Só o escuro.

Só o violão.

Pensar no fim e no que vem depois.

Dançar forró.

Arrepia sentir o cheiro de alguns pela rua.

Ou ouvir a voz de quem sabemos que não está perto.

Arrepia uns olhares tortos.

Dos bons olhares tortos.

Os que fogem um pouco, só pra não entregar.

Os que entregam e muito, só pra não fugir.

Desses gostamos mais…

Arrepia pensar em Deus.

No universo. No aqui e no lá.

Tanta coisa…

Arrepia não saber… se fica, se sai. Se quer ou não. Se gosta. Se vai aguentar até mês que vem.

Beijos que demoram. Beijos rápidos.

Abraços demorados demais.

Dá nervoso pensar, não?

Dá sim…

Arrepia.

 

Diariamente

varal

Para minha família baiana, com amor. Saudades de vocês… e da Bahia.

Bora menino, levante daí! É tarde!

Tem pão e manteiga na mesa, leite com Nescau na geladeira.

Pode tirando essa camisa, vou passar. Acorde sua irmã.

Almoço às 12:30.

Antes de sair, ponham comida pra Raí (o cachorro) e fechem bem o portão.

Tá quente hoje, dá pra pendurar as roupas no varal.

Pro almoço tem feijão de hoje, arroz de ontem, salada e frango.

Fiz suco de Umbu, tá geladinho.

Ô filho, não se esqueça do que te pedi… O salmo da missa, não fizemos.

Pegue o violão, vamos ensaiar.

Deu saudades do tempo que eu dançava…

Vejo suas irmãs e me vejo.

Parece que nasceu grudado nessa rede…

Tomem um banho de mangueira, nesse calor tá valendo. Só não molhem Raí, coitado.

Seu irmão ligou. Milagre.

Lá em São Paulo tá uma chuva da p****. Na TV deu que descoloriram os muros todos da cidade, ficou tudo cinza.

Ele disse que falo muito ao telefone.

Desligou depois de contar do muro. Disse que vai comprar passagem pra vir no carnaval.

Morreu fulano, é aniversário de Joãozinho, amanhã sua Tia faz 80.

Não esqueça do Salmo, viu?

Vai pra onde?

Tá, mas leve sua irmã.

Tá tarde, vão como? Peça carona a ele então.

É hora da novela, avisem a hora que voltam.

Essa blusa não! A verde está limpinha e passada, deixei na primeira gaveta!

Mas já amassou?

Bom, paciência.

Passe perfume, tem que estar cheiroso.

Menina, mas tem que sempre me pedir algo emprestado…

Tá no armário, pendurado.

Não perca! Foi sua tia que me deu. Trouxe de Manaus.

Ô, mas hoje tá quente como a p****!

Estão lindos! Mas a camisa podia estar passada…

Boa noite, fiquem com Deus e não demorem.

Comam alguma coisa…

Tem suco de Umbu na geladeira, tá geladinho.

Só pra falar das manhãs

manha

De manhã lembro das coisas que gosto:

O som de quem espreguiça, o alívio que dá se alongar, fumaça saindo da xícara de café com leite, marcadores de livros, observar quem gosto dormindo aquele sono despreocupado com horário, o papel pardo do pão fresquinho vindo da padaria.

Sinceridade? Nunca fui uma pessoa diurna. Na verdade, das melhores manhãs que vivi, grande parte foi dormindo.

Não sei o que há nos dias que a semana começa mais cedo (importante dizer que não por imposição), que dá uma sensação de calmaria e de repente eu me conto que está tudo bem.

Nem sempre a tarde/noite que segue essa manhã é de se guardar na memória. Aliás, na maioria das vezes não é mesmo.

Mas notei que parar pra prestar atenção no que a luz do sol ilumina quando bate na janela do quarto, nos bigodes da gata, no som de janela abrindo ou de vassoura tirando folhas da rua, na forma como o cabelo acorda, na cara de vida pós o primeiro banho ou a satisfação do primeiro copo de água gelada…

Faz um bem que ó… Me tira a saudade do travesseiro.

E faz bem avisar: das coisas que gosto, o travesseiro é quase protagonista.

De dois minutos

2minutos

São 2 os minutos que separam a hora certa do atraso

2 minutos para contar até 10 e sair de casa.

A vontade? Parar o tempo.

Trocar o 10 por 20, contar até 100 e permanecer em tempo.

Tem sido tudo uns 2 minutos.

2 minutos daqueles de antes do despertador tocar, que não deixam mais o olho fechar.

Daqueles que parecem 30 segundos.

E daí que fica um negócio aqui, por bem mais que dois minutos.

Mas a gente é arteiro…

finge que é rapidinho, coisa pouca.

Não dá nem pro café: conta até dois…

e sai.

Guardanapo

guardanapo

Ela fez meu retrato num guardanapo de restaurante.

Eu falando sobre meus planos para um fim de semana agitado e ela rabiscando enquanto fingia prestar atenção.

Na verdade perseguia meus olhos, enquanto tentava desenhá-los da forma que julgava ser exata.

Eu gostava do jeito que a franja ia caindo sobre os olhos, atrapalhando a concentração no traço.

Num momento, ela, irritada, se lançou sobre a bolsa e pegou um desses negócios que se usa pra prender os cabelos mais insistentes.

Jogou os cabelos pra trás e continuou, focada no guardanapo.

Comecei a falar o que dava na telha, eu mesmo não prestava atenção no que saía da boca.

Perseguia, junto a ela, o lápis. Curioso.

Ela era boa em quase tudo o que fazia, só era ruim em esconder o que passava na cabeça.

Eu amava esse detalhe. Talvez por ser igual.

Dava pra ver nos olhinhos, a alegria por estarmos perto e isso sempre me roubava o melhor dos risos, que também entregava a mesma alegria.

Acho que ela captou o riso no retrato.

O riso e o motivo todo pra tudo isso.

Era ela que estava desenhada, no fundinho dos olhos que ela insistia em retocar, retocar e retocar até ficar do jeitinho que queria.

Ao terminar, me entregou o papel como quem dá a vez no trânsito.

Sem fitar meus olhos ela só arrastou o papel pela mesa até encostar na minha mão.

Eu olhei fundo pro sorriso que saía tímido na minha frente.

Eu bem sabia que era uma espécie de vontade de dizer algo mas sem saber como. Daí ela dizia, sem dizer.

E eu amava esse detalhe.